01Infertilidade Masculina: Um Panorama das Causas
A dificuldade para engravidar é uma questão que envolve o casal, e a investigação deve sempre incluir ambos os parceiros desde o início. Estima-se que o fator masculino esteja presente, de forma isolada ou combinada com o fator feminino, em aproximadamente 50% dos casos de infertilidade conjugal. Muitas vezes, a condição masculina é silenciosa, sem sintomas evidentes, e só é descoberta durante a investigação do casal.
Dentre as diversas causas de infertilidade masculina, a varicocele clínica, que é a dilatação das veias que drenam o sangue dos testículos, destaca-se como a causa mais comum e potencialmente corrigível de prejuízo à produção de espermatozoides. No entanto, o espectro de possíveis diagnósticos é amplo e multifatorial.
Outros fatores relevantes que podem comprometer a fertilidade do homem incluem:

- Causas genéticas: Alterações cromossômicas, como a Síndrome de Klinefelter, ou microdeleções no cromossomo Y, que afetam diretamente a produção de espermatozoides.
- Alterações hormonais: Desequilíbrios no eixo hormonal que comanda a função testicular, como baixos níveis de testosterona (hipogonadismo) ou elevação de outros hormônios como o FSH e o LH.
- Obstruções do trato reprodutivo: Bloqueios nos canais que transportam os espermatozoides (ductos deferentes e epidídimos), que podem ser congênitos ou adquiridos, como após uma vasectomia.
- Infecções: Episódios de orquite (inflamação do testículo), como a causada pela caxumba na puberdade, ou infecções sexualmente transmissíveis podem deixar sequelas na função testicular.
- Fatores de estilo de vida: Tabagismo, consumo excessivo de álcool, obesidade, sedentarismo e o uso de anabolizantes são conhecidos por terem um impacto negativo direto na qualidade do sêmen.
02O Que é Varicocele e Como Ela Afeta a Fertilidade?
A varicocele é definida pela dilatação anormal das veias que compõem o plexo pampiniforme, uma rede venosa localizada no cordão espermático, responsável por drenar o sangue dos testículos. De forma simplificada, é um quadro semelhante às varizes que podem ocorrer nas pernas, mas localizado na bolsa testicular, sendo mais comum do lado esquerdo.
O mecanismo pelo qual a varicocele prejudica a fertilidade não é único, mas uma combinação de fatores. O represamento de sangue venoso na região testicular eleva a temperatura local em alguns graus. Os testículos, para funcionarem adequadamente na produção de espermatozoides (processo chamado de espermatogênese), precisam estar a uma temperatura ligeiramente inferior à do resto do corpo, e esse aumento térmico crônico é deletério.
A varicocele leva a um ambiente testicular hostil, caracterizado pelo aumento da temperatura, estresse oxidativo e refluxo de metabólitos tóxicos dos rins e da glândula adrenal. Essa combinação de fatores interfere na maturação dos espermatozoides e pode danificar seu material genético (DNA), comprometendo sua capacidade de fertilizar um óvulo.
Com o tempo, a varicocele não tratada pode levar a uma piora progressiva dos parâmetros seminais, observada no espermograma, como a redução da concentração (oligozoospermia), da motilidade e da morfologia dos espermatozoides. Em casos mais avançados, pode também estar associada a uma redução do volume do testículo afetado e a alterações hormonais, como a diminuição dos níveis de testosterona.
03A Urgência do Diagnóstico Urológico Precoce
Muitos casais iniciam a jornada de investigação da infertilidade focando apenas na parceira, adiando a avaliação masculina por meses ou até anos. Esse atraso pode ser crucial, pois o tempo é um fator determinante na fertilidade de ambos. Adiar o diagnóstico masculino significa perder a oportunidade de identificar e tratar causas reversíveis antes que um dano mais permanente à função testicular se instale.
O diagnóstico precoce permite que o urologista intervenha em condições como a varicocele clínica em um momento mais oportuno. As diretrizes internacionais, incluindo as da Organização Mundial da Saúde (OMS), reforçam que o tratamento da varicocele em homens com infertilidade e alterações seminais pode melhorar a qualidade do sêmen e aumentar as taxas de gravidez natural (WHO).
Para homens acima de 40 anos, essa avaliação se torna ainda mais relevante. A fertilidade masculina, embora mais duradoura que a feminina, também declina com a idade. Além disso, com o envelhecimento, aumenta a prevalência de outras condições de saúde (comorbidades) e o uso de medicamentos que podem interferir na função reprodutiva. Uma avaliação completa permite uma abordagem mais assertiva e realista do planejamento familiar.
04Como é Feita a Avaliação da Fertilidade Masculina?
A investigação da infertilidade masculina é um processo estruturado, que começa com uma abordagem ampla e se aprofunda conforme a necessidade. O objetivo é construir um quadro completo da saúde reprodutiva do homem, identificando qualquer fator que possa estar dificultando a concepção.
O primeiro passo é sempre uma consulta detalhada (anamnese), onde o urologista irá coletar informações sobre a história clínica do casal, o tempo de tentativas, histórico de doenças prévias, cirurgias (como hérnia inguinal na infância), infecções, hábitos de vida e histórico familiar de infertilidade.
O exame físico é uma etapa fundamental e insubstituível. Durante o exame, o médico avalia o desenvolvimento dos caracteres sexuais secundários, o pênis e, principalmente, os testículos. A palpação cuidadosa da bolsa testicular, com o paciente em pé e realizando a manobra de Valsalva (aumento da pressão abdominal, como se estivesse fazendo força para evacuar), é a principal ferramenta para diagnosticar a varicocele clínica, que é aquela perceptível ao toque.
O espermograma é o exame central na avaliação da fertilidade masculina. Trata-se de uma análise laboratorial do sêmen que avalia múltiplos parâmetros, sendo os principais:
- Volume: Quantidade de sêmen ejaculado.
- Concentração: Número de espermatozoides por mililitro.
- Motilidade: Percentual de espermatozoides que se movem, especialmente os que se movem de forma progressiva e rápida.
- Morfologia: Percentual de espermatozoides com formato considerado normal, segundo critérios estritos (Kruger).
Dependendo dos achados da história clínica, do exame físico e do espermograma, exames complementares podem ser solicitados. Dosagens hormonais (Testosterona, FSH, LH, Prolactina) ajudam a avaliar o funcionamento do eixo endócrino. O ultrassom testicular com Doppler pode ser útil para confirmar o grau da varicocele clínica ou avaliar outras alterações testiculares, mas não serve para diagnosticar a condição isoladamente, pois o tratamento se baseia na presença de varicocele palpável.
05Abordagens Terapêuticas para a Varicocele Clínica
A decisão de tratar a varicocele não é automática e deve ser cuidadosamente individualizada. Segundo as principais diretrizes médicas internacionais, o tratamento cirúrgico é recomendado para homens que preenchem uma tríade de critérios: infertilidade comprovada do casal, presença de varicocele clínica (palpável no exame físico) e, no mínimo, uma alteração nos parâmetros do espermograma.
O objetivo principal do tratamento é interromper o refluxo de sangue venoso para o testículo, eliminando assim os fatores que prejudicam a espermatogênese. Isso pode levar a uma melhora na contagem, motilidade e morfologia dos espermatozoides, além de reduzir a fragmentação do DNA espermático. A melhora nos parâmetros seminais pode aumentar as chances de uma gestação natural ou otimizar os resultados de técnicas de reprodução assistida, como a Fertilização In Vitro (FIV).
As principais modalidades de tratamento são:
- Varicocelectomia Microcirúrgica: Considerado o padrão-ouro, este procedimento é realizado com o auxílio de um microscópio cirúrgico. A magnificação permite ao cirurgião identificar e ligar (amarrar) seletivamente as veias dilatadas, preservando as artérias, os ductos deferentes e os vasos linfáticos. Essa precisão resulta em maiores taxas de sucesso e menores taxas de complicações, como hidrocele (acúmulo de líquido) ou atrofia testicular.
- Embolização de Varicocele: Um procedimento minimamente invasivo realizado por um radiologista intervencionista. Um cateter é inserido através de uma veia (geralmente na virilha ou pescoço) e guiado até as veias testiculares. Pequenas molas ou uma substância esclerosante são injetadas para bloquear as veias dilatadas.
É fundamental destacar que o tratamento de varicoceles subclínicas — aquelas que não são palpáveis no exame físico e são diagnosticadas apenas por ultrassom — não é rotineiramente recomendado para fins de fertilidade. As evidências científicas atuais não demonstram um benefício claro dessa abordagem (pmc.ncbi.nlm.nih.gov). A decisão terapêutica deve ser sempre baseada em uma avaliação clínica completa.
Este conteúdo é informativo e não substitui consulta médica presencial. Para diagnóstico e tratamento, agende uma avaliação com um urologista.






